A sociedade do cansaço

A sociedade do Cansaço

“Cada época possuiu suas enfermidades fundamentais. […] Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como depressão, Transtorno de Déficit de Atenção com Síndrome de Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL) ou Síndrome de Bornout (SB), determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas infartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade”. Byung-Chul Han. Seu livro Sociedade do Cansaço, é a fonte base para a construção de todo este artigo. Serão referenciadas as páginas que contêm o assunto abordado, caso o leitor queira averiguar. As referências estarão logo após a passagem entre aspas. Neste caso, são as páginas 7 e 8.

O suicídio é responsável por mais mortes a cada ano do que todas as guerras e os homicídios combinados. Assim, podemos notar que a cada ano o número de pessoas com doenças neurais ou psicossomáticas aumenta exponencialmente. Doenças como as supracitadas tornam-se as maiores inimigas da sociedade atual.

O filósofo Byung-Chul Han, autor de Sociedade do Cansaço, discorre acerca de que não vivemos mais em uma sociedade imunológica, mas que a violência imanente ao sistema é neuronal, sendo assim, não desenvolve reação de rejeição no corpo social. Antes, o estranho era rejeitado, embora não contivesse nenhuma ação ou intenção hostil, o objeto de resistência era, em sua opinião, a estranheza.

Com o fim da Guerra Fria (1947 – 1991), dá-se uma mudança de paradigma – passa-se de uma alteração do conceito de “estranho e próprio” para um modelo de “amistoso e perigoso”. Agora a resistência imunológica ataca não o estranho, mas aquilo que se comporta de uma maneira destrutiva dentro do organismo, por isso, enquanto o estranho não chamar atenção, a resistência não o afeta.

O desaparecimento da alteridade significa que vivemos numa época pobre em negatividades. É bem verdade que os adoecimentos neuronais do século XXI seguem, por seu turno, sua dialética, não a dialética da negatividade, mas a da positividade. São estados patológicos devidos a um exagero de positividade”. – Página 14.

Nisso, Baudrillard apontou incisivamente sobre essa violência da positividade, como aponta Han, sobre o igual: “Quem vive do igual, também perece pelo igual”. Agora, a sociedade é marcada pelo idêntico, a singularidade é perdida aos poucos, a diferença é combatida e dá lugar ao igual; nisso o diferente, o negativo é praticamente expulso, assim dando força para que as proliferações das doenças neuronais ocorram de forma deliberada.

A violência hoje não é necessariamente física, mas sim neuronal; a evolução crescente da comunicação deu ritmo ao crescente desempenho e a superprodução, coisas que causam o colapso do “eu”, naquilo que Byung denomina como “infartos psíquicos”. O esgotamento, a fadiga e a sensação de asfixia, são manifestações dessa nova forma de violência. O terror é o igual, sem o diferente, sem o negativo. É, na realidade, uma violência sistêmica, imanente ao sistema. TDAH, depressão e o Bornout apontam para um excesso, um superaquecimento, devido a um excesso de positividade, informação e uma massificação do positivo. Uma cultura da produtividade.

 “Aquela violência neuronal que leva ao infarto psíquico é um terror da imanência. Assim, a violência neuronal, ao contrário, escapa a toda ótica imunológica, pois não tem negatividade”. – Página 20.

A sociedade de hoje, não é mais uma sociedade disciplinar, como diria o filósofo francês Michel Foucault (1926 – 1984), em seu lugar entra uma sociedade de desempenho com seus ginásios, torres de escritório, laboratórios, shoppings, bancos e grandes centros comerciais que tomaram lugar dos hospitais, asilos, prisões e manicômios.

Não existem mais sociedades disciplinares, estas agora, deram lugar a uma sociedade do desempenho. Os muros que delimitavam a diferença, caíram ou se tornaram obsoletos. A sociedade disciplinar é negativa, é proibitiva e coercitiva, já a nova sociedade do desempenho, troca o “não” pelo “sim”. Não existem mais proibições, “Yes, we can” começa a ser o novo símbolo. O motivacional e positivo substituem o pessimismo e o negativismo.

A mudança de paradigma da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho aponta para a continuidade de um nível. Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção”.  – Página 25.

imagem ilustrativa

Isso se deve ao insight de entender que a antiga técnica disciplinar com o esquema de proibir, depois de certo tempo, alcança um limite para a produtividade do indivíduo. Isso, consequentemente, acaba impedindo o crescimento a partir dali. Com a ideia de maximizar a produção, substitui-se a disciplina pelo desempenho.

Além disso, a positividade é muito mais eficiente e poderosa do que a negatividade e o “dever”. Desse modo, o inconsciente social passou do dever ao poder. No entanto, não anulou um ao outro. O sujeito é tanto do desempenho quanto é disciplinado. Portanto, o sujeito é mais produtivo agora, mais rápido, mais eficiente e faz isso por “livre e espontânea vontade”.

Então, com toda essa norma que incita uma iniciativa pessoal para tornar-se ele mesmo, a sociedade do cansaço se mostra pelos seus sintomas.

“O depressivo não está cheio, no limite, mas está esgotado pelo esforço de ter de ser ele mesmo” diz Ehrenberg. Han disserta que o que nos torna doentes seria a obrigação de seguir apenas a nós mesmos. Quando falhamos em ser nós mesmos, a depressão toma conta. Porém, a carência de vínculos e os infartos psíquicos também pertencem à depressão. O que realmente a causa não é o imperativo de obedecer a si mesmo, mas a pressão de desempenho. Aqui, a alma é consumida pelo mandato do desempenho.

Na realidade, o que adoece não é o excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como novo mandato da sociedade de trabalho da tardo-moderna e sua liberdade paradoxal”. – Página 27.

Então, Han faz alusão ao último homem de Nietzsche, que se compara aos homens de hoje: o último homem eleva a saúde à categoria de uma deusa: “louvamos a saúde – ‘nós encontramos a felicidade’ – dizem os últimos homens e piscam os olhos”. (Friedrich Nietzsche, assim falava Zaratustra, página 14). O homem depressivo é aquele que explora a si mesmo, deliberadamente sem coação que não seja a própria.

É agressor e vítima, opressor e oprimido. A depressão irrompe quando o sujeito não pode mais poder, sendo, no começo, um cansaço de poder e fazer, fazendo o sujeito entrar em guerra com ele mesmo. Agora, sem líderes e sem coações externas, o próprio sujeito do desempenho se torna seu líder. Ele também se torna seu opressor. Faz de tudo para maximizar o desempenho. O excesso de trabalho se aprofunda e se converte em autoexploração, um jeito muito mais eficaz do que a exploração por outros, pois o sujeito crê ser livre. Esse excesso de positividade também acarretou em uma modificação da estrutura de economia de atenção.

Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal”. – Página 30.

Esse excesso de positividade gera também excesso de estímulos, de informações e impulsos; essa superabundância provocou a fragmentação e a dispersão da percepção, destruindo a atenção. A crescente carga de trabalho tornou necessária a chamada multitarefa, tendo efeitos novos na estrutura de atenção, mas essa técnica “multitasking” não representa um progresso ou sintoma de melhora, na verdade é um regresso aos tempos mais selvagens, um retrocesso – a multitarefa é inerente aos animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de sobrevivência em meios mais perigosos e selvagens.

Na vida selvagem, o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades. Por isso não é capaz de aprofundamento contemplativo – nem no comer nem no copular. O animal não pode mergulhar no que tem diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás de ti”. – Página 32.

A atenção profunda responsável pela filosofia e a contemplação para a criação é, cada vez mais, perdida e tomada pela hiperatenção – sendo caracterizada por uma atenção dispersa e rápida mudança de foco entre diversas atividades, informações e processos. E visto que a hiperatenção não tem tolerância para o tédio, também não deixa que a criatividade e a criação entrem. Byung explica: “Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente”. Já Nietzsche aponta a importância do tédio e do descanso espiritual para o efeito do elemento contemplativo: “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma época os ativos, isto é, os inquietos valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”.  

Nessa sociedade, cada um carrega seu próprio campo de trabalho; somos ao mesmo tempo prisioneiros e vigias, vítimas e agressores. Ocorre assim, a autoexploração. A capacidade real de agir fica restrita a poucos, somos considerados como os muçulmanos nos campos de concentração – depressivos agudos, consumidos e fracos, com a diferença que nós estamos bem nutridos. Com base nisso, somente a vida contemplativa pode transformar o homem naquilo que ele deve ser, sem ela a histeria e o nervosismo são atrelados à sociedade moderna.

Autor de Sociedade do Cansaço

Byung-Chul Han, filósofo da modernidade

 A vita contemplativa tem uma pedagogia específica. Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche diz ter três tarefas das quais as pessoas devem ser educadas. Elas são: aprender a ler, a pensar e a falar e escrever.

Aprender a ver significa ‘habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-se-aproximar-se-de-si’, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento”. – Página 51.

É necessário, de acordo com ele, “aprender a não reagir imediatamente a um estímulo, mas tomar o controle dos instintos inibitórios, limitativos”.  Seguir todo impulso já seria uma doença, um sintoma de esgotamento. Essa hiperatividade torna-se hiperpassividade e ao invés de liberdade, ela acaba gerando coerção. A ilusão de acreditar que quanto mais ativos mais livres, é apenas uma ilusão e nada mais. Faltam pausas, faltam negatividades. A crescente positivação enfraquece a ira, o tédio, o luto e a angústia, pois são todos sentimentos negativos. A ausência da negatividade transforma o pensamento como de um computador – livre de toda alteridade, uma máquina de desempenho autista, como Byung diz, e retira toda a negatividade da vida, negatividade essa que é precisamente o que mantém viva a existência, de acordo com o filósofo germânico Georg Hegel (1770 – 1831).

sociedade do cansaço e talvez da hipocrisia

Essa agitação permanente de uma supremacia da vida ativa, louvada pela sociedade, não gera nada de novo, só reproduz e acelera o que já existe, o andar e o correr, por exemplo. Com isso, forma-se a histeria e o nervosismo por desempenho, o que acaba por criar a sociedade do doping. O doping possibilita um desempenho sem desempenho. Drogas inteligentes permitem o funcionamento sem alterações. Elas maximizam o desempenho. Cientistas sérios argumentam que é irresponsável não fazer uso de tais substâncias. O ser humano está se tornando uma máquina do desempenho. E em contraponto, a sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço excessivo. Elas causam esgotamento excessivo. Isso é característico de um mundo pobre em negatividade e excessivamente positivo.

O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma”. – Página 71.

Esse cansaço individualiza, segrega e isola. Ele não é um cansaço de potência positiva, ele nos incapacita de fazer qualquer coisa. O cansaço do poder positivo, por fim, incapacita por esgotamento, confere indiferença, e essa especial indiferença, outorga aos cansados uma aura de cordialidade. A indiferença agora une a sociedade, sem parentescos, sem identidade – cria-se o dar de ombros, como um afã profundo. Dessa maneira, a sociedade vindoura poderia se denominar de sociedade do cansaço.

6 comentários sobre “A sociedade do cansaço

  1. Pingback: Sobre a leitura | Triunviratto

  2. Pingback: Aculturação e assimilação | Triunviratto

  3. Pingback: Lista de leitura – parte 1 | Triunviratto

  4. Pingback: O que é capitalismo e quais foram suas etapas? | Triunviratto

  5. Pingback: vida ou consumo? | Triunviratto

  6. Pingback: As desigualdades segundo Rousseau | Triunviratto

Compartilhe seu conhecimento