Sobre a solidão e a solitude

Clube da luta
Jack e Tyler Durden.

Há uma diferença crucial no que tangem as duas palavras: — a primeira remete a um estado não escolhido pela pessoa e que geralmente causa problemas psicossomáticos; a segunda é mais como uma escolha, uma preferência. Ser solitário por escolha é gostar da própria companhia, é, acima de tudo, amar a si mesmo acima de todas as coisas. Para uma boa vida as pessoas deveriam aprender um mínimo de compaixão consigo mesmas e ter momentos de solitude lúcidos, não há melhor remédio.

A solitude é diretamente proporcional ao intelecto. O espirito livre — o gênio — prefere estar sozinho, pois só assim consegue uma boa companhia. Já aqueles a quem a natureza não beijou com a inteligência ou a vontade de querê-la é algo péssimo. Quanto mais precisam de pessoas para se sentir felizes, mais são vazias, ocas. Preferem ficar sempre rodeadas por outras pessoas, pois assim nunca terão de enfrentar quem elas realmente são — pobres de espírito, almas torpes e mesquinhas.

Schopenhauer e a solidão

existe um aforismo de Arthur Schopenhauer que sintetiza esse amor pela solidão e a liberdade provinda:

Filósofo alemão Arthur Schopenhauer

“Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas. Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras.

Os nossos dizeres, as nossas acções, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo. Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho.

Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre. A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade.

Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual.

Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.

Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em óptima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina”.

Arthur Schopenhauer, in ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’

Conclusão

Porém, como tudo no mundo, há uma saída; não sendo fácil, mas não impossível, é no mínimo custoso. Trata-se de reformar a si mesmo: uma reforma de corpo, mente e espirito e em alguns casos uma destruição total para uma nova construção, sendo assim o indicio de criação, alusão aqueles 6 dias mais 1.

Vivemos vidas em que não somos os donos, estamos mergulhados em ideias que não são nossas, pensamos coisas que outros pensaram e isso é o cúmulo da escravidão invisível e é necessário detê-la.

Dizer que precisamos deter essa escravidão moral e invisível, por fim, é como voltar a respirar depois de muito tempo submerso em um rio: um prazer, mas automático. Em suma, para entender o que é preciso ser feito, deve-se primeiro passar por todas as fases negras dos seus maiores pesadelos para estar preparado para essa batalha. Nietzsche diria que seria preciso quebrar ídolos, deixar a moral criada, passar pelo niilismo e depois criar seus valores como crianças criam brincadeiras. Após isso, só após derrubar esses “santos” poderemos aproveitar a vida, tanto sozinhos quanto acompanhados, mostrando que a vida criada por si mesmo é a maior liberdade que podemos conquistar.

É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.

Friedrich Nietzsche
Liberdade

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